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08/02/2005 - 09:36:02

O Velho Borracha

Carlos Silva

Quem freqüentou o estádio Bruno Daniel entre as décadas de 70 e 80 do século passado deve lembrar-se desse personagem. Seu nome ninguém sabia ao certo, podia ser Antonio, João, Agenor, não importava: ali, na arquibancada do Brunão, ele era simplesmente o Borracha.
Sempre que havia jogo do Santo André no Bruno Daniel, ali estava aquele senhor, de presumíveis 60 anos, sempre vestindo um terno imaculadamente branco (que contrastava com sua pele de um negro retinto), gravata borboleta, lenço na lapela e, nos jogos à tarde com muito sol, um chapéu panamá igualmente branco. Não era alto, o Borracha; um metro e sessenta, não muito mais que isso. O rosto vincado de rugas, um vasto bigode e a voz meio enrolada completavam a figura.

Não dava para imaginar os jogos do Ramalhão sem o velho Borracha na arquibancada, sempre perto da "bateria", pulando como criança, vibrando e batendo palmas, puxando o coro de "É Santo André, oba!"; um autêntico e incansável animador de torcida. Nos outros dias da semana, podia ser visto andando pela Oliveira Lima, vestindo um figurino bem diferente: um agasalho com a marca de conhecida loja de artigos esportivos do centro da cidade. Esse trabalho de "garoto propaganda" lhe rendia alguns trocados, que somados à minguada aposentadoria lhe permitiam ir levando a vida.

Por muitos anos, Borracha viveu um caso de amor com o Santo André. Além de ir a todos os jogos no Bruno Daniel, sempre que possível juntava-se às caravanas da torcida para as partidas fora de casa. Cansou de apanhar por esse interior afora (o "cacete" que levou em São José dos Campos em 1979, quando entrou em campo com uma bandeira do Ramalhão, foi histórico). Para muita gente, ele era o verdadeiro torcedor símbolo do Santo André.

Mas, como num "dRamalhão" mexicano, algo aconteceu para atrapalhar esse romance. Políticos cartolas de certa cidade vizinha, fartos de ver o estádio às moscas nas partidas de "sua" equipe enquanto os jogos do Ramalhão arrebentavam de tanta gente, fizeram ao Borracha uma proposta irrecusável: casa própria e um generoso salário mensal, em troca de mudar de cidade e de time. A proposta balançou Borracha, que, fala-se, morava em um barraco no Jardim Irene. Humilde ou ingênuo demais para perceber a armadilha, o pobre homem acabou aceitando a proposta indecorosa. O resultado não poderia ser outro: a palavra não foi cumprida, e Borracha, ressabiado, sem salário e sem casa, voltou a freqüentar o Bruno Daniel. Mas já não era a mesma coisa. Muitos nunca lhe perdoaram a "traição". Até hoje, as opiniões sobre o Borracha entre os membros de nossa mail list são divergentes: para alguns ele foi um exemplo de como torcer com alegria e civilidade, para outros não passou de um mercenário simplório.

Com o passar do tempo, sua presença no estádio foi rareando, até afinal sumir de vez. Muitos boatos sobre ele passaram a circular: estaria doente, ou se convertera a uma igreja evangélica e virara pastor. Há algum tempo, tivemos na lista a informação que o Velho Borracha já teria falecido.
Um dos objetivos dos Ramalhonautas é recuperar o passado do Ramalhão, e um personagem tão rico e tão ligado à História do clube merece ser mais bem conhecido. Se você, amigo internauta, souber mais alguma coisa sobre ele ou tiver mais alguma história interessante, mande-nos um e-mail. Ajude-nos a resgatar o Velho Borracha para a posteridade






 

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